(Para entender este texto veja primeiramente o comercial, pelo youtube, por exemplo)
Costumam dizer que só sei falar de forma nostalgica e melancólica sobre as desgraças da vida. Mas não apenas. Também sei falar de forma bem humorada, irônica e cínica sobre as desgraças da vida.
Mas minha empreita não é tão casual assim. Acredito seriamente que a televisão é o maior, melhor e mais invencível instrumento de hegemonização e dominação de todos os tempos. Acho isso tão óbvio, que ninguém deve discordar. Vivemos na sociedade do espetáculo, para lembrar Guy Debord, mas no entanto, parece que a sociedade do espetáculo tem relaxado em sua produção. As novelas e os filmes estão cada vez tão simplificados, ruins e ridículos, que é possível um dia as pessoas redescobrirem o prazer da leitura.
Mas apesar de toda esse intuito político, a crítica se tece sobre um comercial da campanha de doação de órgãos. Nada contra, aliás, super a favor. Espero que todos doem seus órgãos e, ser contra isso em pleno śeculo XXI é ridículo. No entanto, os geniais produtores da campanha publicitária Axel Levay, Marilu Rodrigues e Widerson Souza (acabei de encontrar seus nomes pesquisando no Google) usaram a velha fórmula: muita emoção sem dizer bosta nenhuma. Uma fórmula muito antiga e praticada.
Na propaganda um cachorrinho liiiiindo de morrer sai todo feliz pensando que viu seu dono na rua, mas quando eles estão próximos, o cão vê que não é seu dono (e nem o Doutor House como me pareceu a primeira vista). Adiante, o cão entra na casa, deita-se em seu sofá em frente a foto de seu dono que faleceu. Uma lareira no fundo e a música triste que vinha se arrastando durante todo o comercial chega ao ápice! Este é o momento de você chorar. O dono do cão faleceu e doou seus orgãos para o homem que passou em frente sua casa e parecia o Doutor House. O cão sabe-se lá como, percebeu isso e fica tão triste, mas tão triste, que você corre pegar seu RG para apagar a frase "Doador de Órgãos" com corretivo líqüido ou raspando com a unha mesmo. Eu até corri, mas ai vi que não tinha essa frase. Agora não sei se sou doador ou se eu viajei e não é no RG que se declara doador, embora eu tenha visto em algum lugar, mas foda-se.
O comercial não diz nada e é totalmente incongruente, isso sem exagerar como um amigo meu que disse (ele já estava na quinta lata de cerveja) Porra, esse cachorro mora sozinho nessa casa enorme!?
Porém, ao buscar informações sobre o comercial, achei inúmero relatos exaltando o comercial como "na minha opinião, essa é uma das campanhas mais lindas e perfeitas que eu já vi. Querem saber? Eu chorei…". E neste artigo diz, é claro, que a campanha foi um sucesso e as doações aumentaram muito.
A velha fórmula, como se vê funciona. Os fins justificam os meios? Claro que vão discordar de mim, mas eu preferia ver as pessoas doando órgãos por vontade própria, porque senão o cachorrinho vai ficar triste. Mas a velha fórmula já inclui nas suas premissas que o povo gosta de lixo, só entende lixo e só é sensível a lixo. Eu, prefiro ser menos soberbo, e acreditar que é falta de opção, digam o que disserem quanto quiserem.
Se alguém discorda, como diz minha querida avó: que vá morder macaco na bunda!
O anarquismo existe, acreditem!
3 dias atrás

