terça-feira, 17 de novembro de 2009

Não doe orgãos, pelo bem dos cachorrinhos!

(Para entender este texto veja primeiramente o comercial, pelo youtube, por exemplo)

Costumam dizer que só sei falar de forma nostalgica e melancólica sobre as desgraças da vida. Mas não apenas. Também sei falar de forma bem humorada, irônica e cínica sobre as desgraças da vida.

Mas minha empreita não é tão casual assim. Acredito seriamente que a televisão é o maior, melhor e mais invencível instrumento de hegemonização e dominação de todos os tempos. Acho isso tão óbvio, que ninguém deve discordar. Vivemos na sociedade do espetáculo, para lembrar Guy Debord, mas no entanto, parece que a sociedade do espetáculo tem relaxado em sua produção. As novelas e os filmes estão cada vez tão simplificados, ruins e ridículos, que é possível um dia as pessoas redescobrirem o prazer da leitura.

Mas apesar de toda esse intuito político, a crítica se tece sobre um comercial da campanha de doação de órgãos. Nada contra, aliás, super a favor. Espero que todos doem seus órgãos e, ser contra isso em pleno śeculo XXI é ridículo. No entanto, os geniais produtores da campanha publicitária Axel Levay, Marilu Rodrigues e Widerson Souza (acabei de encontrar seus nomes pesquisando no Google) usaram a velha fórmula: muita emoção sem dizer bosta nenhuma. Uma fórmula muito antiga e praticada.

Na propaganda um cachorrinho liiiiindo de morrer sai todo feliz pensando que viu seu dono na rua, mas quando eles estão próximos, o cão vê que não é seu dono (e nem o Doutor House como me pareceu a primeira vista). Adiante, o cão entra na casa, deita-se em seu sofá em frente a foto de seu dono que faleceu. Uma lareira no fundo e a música triste que vinha se arrastando durante todo o comercial chega ao ápice! Este é o momento de você chorar. O dono do cão faleceu e doou seus orgãos para o homem que passou em frente sua casa e parecia o Doutor House. O cão sabe-se lá como, percebeu isso e fica tão triste, mas tão triste, que você corre pegar seu RG para apagar a frase "Doador de Órgãos" com corretivo líqüido ou raspando com a unha mesmo. Eu até corri, mas ai vi que não tinha essa frase. Agora não sei se sou doador ou se eu viajei e não é no RG que se declara doador, embora eu tenha visto em algum lugar, mas foda-se.

O comercial não diz nada e é totalmente incongruente, isso sem exagerar como um amigo meu que disse (ele já estava na quinta lata de cerveja) Porra, esse cachorro mora sozinho nessa casa enorme!?

Porém, ao buscar informações sobre o comercial, achei inúmero relatos exaltando o comercial como "na minha opinião, essa é uma das campanhas mais lindas e perfeitas que eu já vi. Querem saber? Eu chorei…". E neste artigo diz, é claro, que a campanha foi um sucesso e as doações aumentaram muito.

A velha fórmula, como se vê funciona. Os fins justificam os meios? Claro que vão discordar de mim, mas eu preferia ver as pessoas doando órgãos por vontade própria, porque senão o cachorrinho vai ficar triste. Mas a velha fórmula já inclui nas suas premissas que o povo gosta de lixo, só entende lixo e só é sensível a lixo. Eu, prefiro ser menos soberbo, e acreditar que é falta de opção, digam o que disserem quanto quiserem.

Se alguém discorda, como diz minha querida avó: que vá morder macaco na bunda!

Máximas de um homem mínimo

A vida é um grande circo! E eu sempre achei circo um saco...

Koalas e molho francês

--Cara, vou lhe dizer uma coisa, isso realmente é um assunto importantíssimo - pausa, duas bolas, o maldito não tá carburando, - então... é isso cara.
-- É... - pequena pausa.
--Do que eu tava falando mesmo?
--Não era uma parada dos Koalas e tal?
--Não, não... depois, depois.
--Daquele filme francês lá!
--Não, não, não... antes, antes.
--Hum... putz... também viajei.
--Pode crer.
--Desencana, vamos mudar de assunto.
--Pois é.
--Então, lembra daquele papo sobre a Ana?
--Putz, lembrei!!! Caralho, pode crer!
--Da Ana?
--Não, não, o lance do koalas!

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

serenata

Sid me chamou para uma festa. Balada boa: bebida barata + banda legal. Não quis. Queria ficar em casa. Dia de varanda. Na minha casa tem uma varanda. Nada demais, um espacinho de merda entre o aperto de minha casa e a dos vizinhos. Nem é varanda de verdade porque não tem visto boa daqui. Você não vê nada, só o vizinho. É um saco quando ele sai na varanda dele e eu perco minha privacidade. Agora tô aqui bebendo breja. A breja tá boa, mas não muito gelada. O dia tá quente. Dia bom pra balada.

Mas eu não fui. Não tava com saco. Tem dia que tudo está bem, mas você não está bem. Porra, que saco. Eu adoro balada, um monte de gente e aquela energia toda de jazz e rock n roll e alcool e vaginas... Mas hoje eu tô de bode. Não é cansado de corpo, de andar, de carregar qualquer merda. Até botei Billie Holiday pra tocar.

Vontade de ficar sozinho. Eu deito no sofá e tenho vontade de desistir de tudo. Tudo o quê? O quê se tem pra desistir nessa vida? Não tem! Esse é o problema. E se matar, porra, isso é muito dramático e deve doer pra caramba. Para. Desistir de quê? Nem de trabalhar eu consigo desistir, sou obrigado. E desistir de pagar a conta de luz? Foda. Só querem que eu desista de escrever, mas isso eu também não desisto. Foda-se.

As vezes acho que amo as pessoas, às vezes que odeio todo mundo. Ah, fodam-se as pessoas. Será que o mundo não vê como eu quero seu bem? Será que todo mundo pensa isso? Acha que é bom pro mundo e o resto do mundo é uma merda. Só que todo mundo pensa isso. É claro que ninguém vai dormir e se acha o cuzão. Todo mundo se acha bom e bonito, e acha que a culpa do mundo ser feio é dos outros. Mas isso é o que os outros pensam também. Então somos todos uns merdas? Putz, eu só estou é pensando merda. Acho que bebi demais.

Porra, que noite triste do caralho! Será que eu preciso de uma namorada? Ou será que é só essa brisa quente? Uma latinha, duas latinhas, três latinhas... uma pirâmide de latinhas. O mundo.

Que porra de palavra é essa: mundo? É tudo o que não é eu? Se é assim, eu não tenho que ser diferente do mundo? Nós não existimos apenas por causa de nossa oposição? É por isso que o mundo é um saco... resumindo.

Putz, que noite chata. Nem eu estou me aguentando de tão chato. Acho que vou ver pornografia na internet...

domingo, 8 de novembro de 2009

Televisão de domingo

Porra, domingo é de fuder mesmo. Acabou o futebol. Até comecei a gostar de futebol, porque analisando bem, tudo mais que passa na televisão é pior. Ridículo. Lixo. Você ta vendo o futebol, e mal acaba aparece o gordo idiota do Faustão falando merda. E ele nem é mais gordo, o que deixa ele ainda mais bobo. Ai eles colocam qualquer coisa ridícula: gente feia, gente pobre passando vergonha, poodles, oh céus, quanto poodles e cães aparecem nesse programa satânico. Vou até a televisão pulando roupa suja no chão e a caixa de cerveja de trigo que ganhei do meu amigo, afinal, domingo é o dia de arrumar a casa, mas também é o dia que você menos quer limpar a casa. Já pulo direto o SBT, que é o canal mais podre de todos, tirando aqueles evangélicos e o católico e aqueles horríveis só de propaganda. Ai você chega na Cultura acreditando que haverá algo informativo e interessante ao mesmo tempo e só vê um monte de gringo mal dublados: os malditos programas da Discovery e BBC.

Putz, aleluia que inventaram a internet. Abro uma cerveja e faço um brinde ao inventor da internet. Quem foi mesmo? Os militares, não foi? Bom, pra militar é que eu não brindo nem a pau. Descompacto o pacote RAR que eu baixei e com meu ARK, arremesso os MP3s que baixei no player. New York Dolls. Som no talo. Será que eu faço um aquário com essa televisão?

Disturbio Mental

Balada Hardcore é balada Hardcore, não tem jeito. Você pode chegar cedo que já tem lá na frente alguns caras de preto, às vezes um moicano colorido, roupas rasgadas. Eles já estão lá, sedentos pelo som, aliviando a ansiedade com cerveja. As pessoas que passam pela ruam não gostam, um vizinho lástima "iii, é hoje" o outro já acha que vai ter confusão, embora nunca tenha. Mas ninguém os impede, hoje é a noite deles, a sua pequena e infinita Zona Autônoma Temporária, lá onde não há hierarquias e as regras são outras, lá onde além das palavras de seus discursos inflamados, eles de fato e pragmaticamente, se tornam anarquistas.

Cheguei na entrada e me lembrei que ainda não tinha pensado numa estratégia pra entrar na faixa. Cinco reais a entrada, disse a mocinha bonita de nome estranho que cuidava da portaria. Ah, então, eu sou da Distúrbio Mental, não da banda, mas o cara que carrega as coisas, embora eu não esteja com as coisas, tipo microfone, caixas, essas coisas, sabe? Ela ficou olhando, eu estava me enrolando todo. Eu vim na frente, porque eles estão vindo logo atrás, com as coisas... inclusive. Ela continuou olhando. Eu não te conheço de algum lugar? Não? Enfim, mas o fato é que eu estou trazendo algo que precisava chegar antes. É isso. Ela olhou pras minhas mãos vazias. Ah, sim, não é uma coisa exatamente, é uma mensagem, da Distúrbio para aquele caraa ali... me virei e apontei pro primeiro cara que vi no bar. O cobra? Isso, ele mesmo. E finalmente parti, com meu salvo conduto, sem pagar até o cara. Pedi uma breja e fui pra dentro que o som ja tava rolando. Esses caras do Janela Aberta!

Rolou muita coisa massa: Ação Tóxica e Hips not Dead (com meu grande camarada Hugo, conheço das antigas, na época eu que eu batia nele, nos treinos de Kung-fu... ele quem estava organizando o evento com o Janela Aberta). O som foi demais, mas me desculpem, essa crônica vai para Distúrbio Mental. Fazia cinco anos que eu não ouvia os caras ao vivo, creio que no último Punkadaria, organizado pelo saudoso Stanley.

Por quê tu vives, se não tem idéias pŕoprias? dizia a voz rasgada de Kelsen, o Abigail Papillon. Uma voz estridente que cortava feito estilente cego minha mente: Use sua mente para protestar, não se aliene no Serviço Militar! Contrastando, Dell, o baixista gritava no vocal: Guerra Nuclear, poluição no ar, tiros de canhão, corpos pelo chão! Lá estavam eles gritando coisas que todos ali desejavam, com a roda se formando. Por quê tu vives? Um som perfeito dentro de sua estética, com aquela sujeira punk mas sem ser repetitivo. P-xe na batera mandava brilhantemente aquela pegada bem marcada que ia fazendo nossos pés marcharem para o centro da roda enquanto Giuliano na guitarra mandava junto com Dell riffs pesados e hipnóticos e eu já estava lá no meio, com a galera balançando a cabeça e marcando o tempo com o braço no ar, Por quê tu vives? e começou aquele empurra empurra, onde ninguém pede desculpa e todo mundo se toca, livres, fluindo no som, chutando o ar, caindo sobre o palco, seguindo a mente do insano quarteto Por quê tu vives? e parecia que a gente vivia só pra chegar até ali, naquele ritual tribal "Somos escravizados por acreditar na liberdade, somos discriminados por querer a igualdade / lutamos por uma sociedade livre, sem preconceito e discriminação / lutamos por uma sociedade livre"!

Putz, o som estava tão massa que eu tive que fazer uma importante escolha: gastar meus últimos reais em cerveja ou comprar um CD do Distúrbio? E ai tive que fazer algo que não costumo fazer. Só que o Dell percebeu que eu curti tanto o som que me deu o segundo CD da banda na faixa! Porra, que massa. Só tive que cerrar cerveja até o fim do som, que aliás acabou cedo. Mas entendo, os vizinhos precisam dormir. Nossa liberdade termina onde começa a do outro? Prefiro outra frase menos célebre "a liberdade do outro nunca restringe, o que restringe nossa liberdade é a escravidão do outro", disse Bakunim, há muito tempo atrás. Mas afinal o que estamos todos dizendo aqui nessa noite? Não é apenas a reafirmação de palavras e sonhos que muitos homens carregaram ao longo da história para nos entregar hoje, aqui, de bandeja? Sim, são esses sonhos que acalentamos aqui, as mesmas bandeiras, com novos hinos! Mais uma noite entoamos com Distúrbio Mental: "Somos libertários, somos anarquistas!"