sábado, 1 de outubro de 2011

derivações

Eu nunca fui bom de lembrar fisionomias. Rostos, caras, traços, marcas. Me confundo facilmente. Acho que é uma pessoa conhecida e não é. Tenho sempre receio de perguntar. Será que é o fulano? Não lembro direito de olhos, bocas, narizes. Sempre reparei mais nos cabelos, exatamente aquilo que mais muda.

Sou uma lástima pra reconhecer as pessoas. Isso me deixa preocupado. Eu lembro mais das palavras, das ações. É como se as pessoas fossem feitas todas de palavras. E as palavras nunca significam nada. Pelo menos nada que seja certo. Eu tenho medo dessa dúvida sobre as pessoas. Eu teno medo de esquecer as pessoas importantes. As vezes olho no espelho e me acho estranho.

Parece que estou ficando velho. Parece que peguei uma gripe. Não lembro as datas de aniversário. Estou sempre suportado por agendas... várias. Esqueço a água no fogão. Esqueço de pagar uma conta. Lembro de coisas que talvez jamais existiram. Eu reinvento a vida toda a toda hora, insegura, sem a coragem das frases de efeito. Eu sou uma conjunção repleta de medo. Eu só não tenho medo de escuro.

Sob o fino fio da navalha, parece que, nalgum momento, de repente, eu possa, desaparecer. Você não é isso que você está sendo, me disse uma vez uma ex-namorada... mas a gente pode ser outra coisa que não o que a gente é?

Tenho medo porque perdi a identidade das coisas. Por que tudo pode ser, a todo instante, qualquer coisa. É como se as coisas pudessem todas serem diluidas num continuo. No contínuo sem secções, facções, o contínuo não tem delimitação, denominação. O continuo é o esquecimento,

Não tenho medo de morrer, tenho medo de esquecer a vida. Tenho medo de ser uma cobra que morde. Tenho medo de longos dias secos e sem umidade.

Tenho pouco dinheiro na minha carteira essa semana. Minha garganta dói. Os meus olhos eu sei, que jamais verão nada de maravilhoso novamente. Quero ir até a janela. Parece que começou a chover.


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