Veja, esses relatos
são páginas de um diário enferrujado. Não há aqui nenhuma
tentativa de te enrolar, leitor. Não estou te explicando para te
esclarecer... é para dizer, na verdade, que você jamais entenderá
tudo que se passou nessas páginas alaranjeadas, carcomilhadas...
Esse tem sido o grande pacto implícito da literatura: contar uma
verdade. Não há verdades aqui! Somente lembranças.
Só mentem as
lembranças! As lembranças se reescrevem a todo momento. Eis o diabo
de fixa-las na escrita. Fixa-se apenas algo que era sem deixar de
ser. Por quê acreditamos que naquela foto, aquele menino mirrado e
ingênuo é o mesmo ser que hoje a vê com saudades?
Uma vez, quando
criança, fiz um buraco bem fundo no terreno baldio vizinho. Enterrei
aquela comum ideia, de botar numa caixa resistente fotos, brinquedos,
bilhetes, lembranças de experiências que eu jamais deveria
esquecer. Anos mais tarde me mudei da casa. Jamais reavi a caixa.
Naquele terreno foi construida uma casa. O tempo, essa dinâmica das
coisas, pôs pedras sobre meu passado. Jamais podemos recuperar o
passado.
Eu não saberia lhe
explicar melhor essas páginas que você lê. E nem você entenderá,
com tantos buracos, com tantas dificuldades semiológicas de
expressar uma sensação em palavras: como a sensação de uma lâmina
fria, a sensação da transposição de uma fronteira, a sensação
de alguma coisa que chamamos num momento de amor, mas que não
sabemos nem como adjetivar: bom, bizarro, raro, especial,
inexplicável.
Vamos imaginar então
que você mora naquela casa. E que por um algum destino
cinematográfico empreendeu uma reforma no piso de sua cozinha e
encontrou aquela velha caixa. A caixa num momento lhe chama a
atenção. Uma antiga e bela caixa de Matte Leão. Seria pintada a
mão? Essas coisas antigas eram fantásticas. Um cadeado toscamente
improvisado. Você poderia quebrá-lo facilmente, mas não faça
isso. Tome, aqui está a chave.
Sinta-se a vontade
para ultrapassar esse envólucro enferrujado. Leia e veja essas
pequenas partículas de memória e entenda como quiser. Monte sua
história, sua interpretação, suas relações extra-textuais,
infira seus argumentos... mas tudo isso afinal, só reflete e
refrata, a sua própria imagem.
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