segunda-feira, 23 de maio de 2011

tempestade me lembra você (prefácio?)


Veja, esses relatos são páginas de um diário enferrujado. Não há aqui nenhuma tentativa de te enrolar, leitor. Não estou te explicando para te esclarecer... é para dizer, na verdade, que você jamais entenderá tudo que se passou nessas páginas alaranjeadas, carcomilhadas... Esse tem sido o grande pacto implícito da literatura: contar uma verdade. Não há verdades aqui! Somente lembranças.

Só mentem as lembranças! As lembranças se reescrevem a todo momento. Eis o diabo de fixa-las na escrita. Fixa-se apenas algo que era sem deixar de ser. Por quê acreditamos que naquela foto, aquele menino mirrado e ingênuo é o mesmo ser que hoje a vê com saudades?

Uma vez, quando criança, fiz um buraco bem fundo no terreno baldio vizinho. Enterrei aquela comum ideia, de botar numa caixa resistente fotos, brinquedos, bilhetes, lembranças de experiências que eu jamais deveria esquecer. Anos mais tarde me mudei da casa. Jamais reavi a caixa. Naquele terreno foi construida uma casa. O tempo, essa dinâmica das coisas, pôs pedras sobre meu passado. Jamais podemos recuperar o passado.

Eu não saberia lhe explicar melhor essas páginas que você lê. E nem você entenderá, com tantos buracos, com tantas dificuldades semiológicas de expressar uma sensação em palavras: como a sensação de uma lâmina fria, a sensação da transposição de uma fronteira, a sensação de alguma coisa que chamamos num momento de amor, mas que não sabemos nem como adjetivar: bom, bizarro, raro, especial, inexplicável.

Vamos imaginar então que você mora naquela casa. E que por um algum destino cinematográfico empreendeu uma reforma no piso de sua cozinha e encontrou aquela velha caixa. A caixa num momento lhe chama a atenção. Uma antiga e bela caixa de Matte Leão. Seria pintada a mão? Essas coisas antigas eram fantásticas. Um cadeado toscamente improvisado. Você poderia quebrá-lo facilmente, mas não faça isso. Tome, aqui está a chave.

Sinta-se a vontade para ultrapassar esse envólucro enferrujado. Leia e veja essas pequenas partículas de memória e entenda como quiser. Monte sua história, sua interpretação, suas relações extra-textuais, infira seus argumentos... mas tudo isso afinal, só reflete e refrata, a sua própria imagem.

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