Olha! Escuta! "A telephone that rings but who's to answer / Oh, how the ghost of you clings / These foolish things remind me of you" ah, Billie Holiday. Eu sempre gostei dela. Você não, gostava do jazz mais experimental. Não gostava de jazz cantado. Acho na verdade é que era tudo um preconceito porque você nunca gostou de intérprete feminina.
Eu gosto da voz da mulher. Amo voz de mulher. Especialmente aquelas que mais do que timbre, têm volumetria, modulação. Gosto das vozes que sabem abaixar o volume na hora certa, cadenciar as palavras exatas, e colocar as vírgulas e reticências nos lugares exatos. Gosto das bocas, as linhas curvas, a expressividade de cada lábio. A carnatura toda ou o fino traço vermelho. Todas elas têm algo a dizer antes mesmo do beijo. Por isso sempre adorei sexo oral. Dar ou receber. A volúpia das bocas. Não há mais volúpia em qualquer lugar que dentro de uma boca. É por isso que a boca é o ninho da poesia. Gosto de vinhos, vermelhos, fortes, secos mas pelo gosto, não pelo excesso do álcool. O vinho é daqueles prazeres que deixam longos rastros. Quando uma garrafa de um bom vinho acaba, fica ainda na boca o gosto, aquele gosto que nada lembra a uva. Já reparou que vinho não tem gosto de uva. Vinho tem gosto de palavras. Por isso que as pessoas dizem "esse vinho tem gosto de madeira, esse de flores, esse de blablabla". Eu digo, esse vinho tem gosto de domingo a noite, esse tem gosto de chuva, esse tem o gosto de um nome, esse tem gosto de alegria momentânea... Gosto das palavras. Sobretudo gosto das palavras porque elas servem pra dizer qualquer coisa e nunca dizem nada. Afinal, de que adianta algo assim? Mas é, é assim. O que será que você pensa de cada palavrinha que eu falo agora? Com certeza não é exatamente o que eu quero dizer. Quando eu digo sexo oral, você pensa porque eu não falei chupar, felação, boquete. Você pensa no sentido disso baseado em nossas outras conversas, no que você já ouviu e conheceu de mim. Sabe, se eu dormir, você por favor me cubra, me dê um beijo na testa e saia. Apague a luz e jogue a chave por debaixo da porta. Não é romântico?! Huahuha. Sabe, se tudo o que eu disse hoje, fosse escrito, escrito por um escritor, um escritor bem ordinário na verdade, desses que não conseguem publicar nada e tem que pagar o livro, não vende nada.. se esse texto fosse interpretado por alguém, uma atriz, ela poderia ser inclusive mais onita do que eu, pra atrair mais público, ok? [Risos] Teatro lotado, bem, na verdade nem tanto. O espetáculo se chamaria algo como Para Mim Mesma... [gesticula] com reticências e tudo. Lógico que não teria muito público. Monólogo, hoje em dia. E ainda uma história que não contasse nada, sem enredo, sem clímax, chata. Se eu falasse exatamente essas palavras para um público de cem pessoas. Acho que cada uma entenderia de forma diferente. A relação pessoal de cada pessoa com cada palavra, suas histórias de vida com o teatro, o dia que tiveram, cansativo ou realizador, as divergências ideológicas, enfim. Cada um entende do seu jeito. Ah, quem inventou a lógica tava distante demais em suas abstrações a ponto de esquecer o homem. O ser humano.
Ah meu bem, não a entendimento entre as pessoas. Só há confusão. Mas afinal, como seríamos individuais e diferentes, sem estar em conflito o tempo todo? Me entender. Tudo o que eu queria hoje, era me entender. Trinta anos. E agora que eu descobri que não existe entendimento entre as pessoas, o que eu faço? Será que você está entendendo isso que eu quero dizer? Se você entendeu que não há tristeza nisso, mas beleza. Então acho que estamos próximos.
2 comentários:
Acho que a Wendy tem razão, isso está finalmente pronto....
Caro escritor, sua personagem pede direito a voz!
Visite o blog www.reflexoesdegeni.blogspot.com e veja a "Resposta da Personagem".
Att
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