Nossas últimas batalhas foram sendo cada vez mais complexas em suas abstrações virtuais. O eterno desejo de alcançar a comunicação mais ideal, jamais, sonho assim jamais se realizou. Mas como se realiza um sonho? Quando ele se tranforma em realidade? Mas a realização do sonho então seria seu fim, limitado pela perversa realidade? Não seria esse, na verdade o fracasso do sonho, e seu sucesso seria a permanência eterna do sonho? A irrealização!?
Nietzsche dizia que as palavras são as pontes e arco-íris que ligam as coisas eternamente separadas... mas eu penso, o que está ligado por algo, não está por fim, separado, de alguma forma ainda? Estar verdadeiramente ligado, tão intimamente ligado, não seria não haver diferença alguma? E ser a mesma coisa, não é ser uma coisa só, sem separação?
É engraçado que eu só possa pensar essas coisas agora, sentido assim o vento, tão real, batendo em meu rosto. Parece que tiramos o gosto de tudo aquilo que era verdadeiro. Bem, não estou aqui mais uma vez tentando explicar pra mim mesmo que não vejo diferença entre a Camada Zero e os Níveis Superiores, não acho nem lá nem cá melhor. Um poema que uma vez eu li chamava Cante lá, que eu canto cá... Acho apenas que a gente pra gostar de algo tira o gosto de uma outra coisa. Admiração, afinal, conta tempo. E a gente na verdade admira aquilo com o que a gente gasta nosso tempo.
Bem, também existem as intereferências externas, nem tudo é possível. Se estou agora com esse cabelo desgrenhado, essa jaqueta apertada sentado no parapeito desssa velha ponte de madeira... talvez esteja aqui apenas porque não posso estar lá. Não posso me conectar, não posso estar em um nível sequer de virtualização artificial, só aqui, nas obscuressências da minha mente, meu cérebro que já deve estar ficando velho.
Mas mesmo daqui, nessa Camada tão inferior, onde o principal meio de comunicação são a liguagem tradicional e nossas cordas vocais, até os mais elevados canais de comunicação, sempre estamos trabalhando e lutando por uma forma de comunicação mais eficaz, mas nunca estivemos, na verdade, unidos, intimamente unidos.
Quando havíamos conseguido estabelecer redes descentralizadas, onde todo computador poderia acessar por ondas a rede através de outro computador conectado a rede, eliminando os servidores centralizados através de simples plugins PF4... quando boa parte da tecnologia tornou-se livre, sem dono e disponível para utilização de qualquer pessoa... quando a tecnologia de hardwares avançou ao ponto de tornar uma comunicação em qualidade de vídeo M:12 e sons com canais múltiplos praticamente instântaneos... bem, parecia que cada vez mais estávamos próximos da comunicação ideal, mas o horizonte distante sempre retrocedia um passo. Depois surgiram os protocolos #23.50 para resolver nossas novas necessidades da comunicação em três dimensões, os protocolos #44@0 de compreensão de ondas cerebrais para nossa necessidade de demandas múltiplas instântaneas e enfim, tanta coisa que já estavam nos museus de tecnologia, antes mesmo das mil empresas com ações mais caras no mercado mundial serem empresas de tecnologia abstrata.
Esse rio que passa lento e corrediço debaixo dessa ponte de onde balanço meus pés... se eu e ele nos tornássemoms um só... não seria meu fim? Nossa melhor qualidade, cada vez mais me parece, é sermos exatamente distintos. Sermos diferentes em alguma coisa.
Talvez seja apenas o ódio que nos permite existir. É ele que nos salva da impossibilidade de sermos.
Comunhão total, na verdade, eu só alcancei em três tipos de experiências: no sexo, na religião e nas drogas. O maior prazer de todos, de sermos um, é no entanto, o mais terrível de todos os medos. Pior que o medo de morrer, apenas o medo de deixar de existir. E nosso maior prazer, é estarmos próximos desta barreira.
1 comentários:
pressupondo que sonho e realiade são categorias antagônicas, realizar sonhos pode ser o mesmo que destruí-los, já que em nossa língua "realizar" tem a mesma raiz de "real" e nesse sentido "realizar" seria trazer ao real... ao trazermos os sonhos ao real os destruiriamos, tiramos o que neles os faz ser sonhos...
ou
ao realizarmos sonhos estamos confundindo as duas categorias numa outra coisa. a essa outra coisa chamamos arte, filosofia, poesia, etc...
muito bom o texto! a sacada do "narrador-eu-lírico-autor" na ponte olhando para o rio é demais!
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